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Aventuras na História

A influência da carbonária na unificação da Itália

Se não fosse uma sociedade secreta inspirada na maçonaria, a nação italiana como a conhecemos hoje não existiria

Arthur Albolea | 04/07/2013 14h19

Heróis no processo de unificação da Itália, Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazzini tinham algo mais em comum além do primeiro nome e do nacionalismo. Eles pertenciam às mais poderosas sociedades secretas da Europa àquela altura: maçonaria e carbonária. E usaram a teia de influência das duas organizações para decidir o rumo do movimento nos seus momentos cruciais.

A sequência de fatos que desembocou na unificação italiana teve início em 1814. Naquele ano, o Congresso de Viena reuniu representantes de todas as nações europeias, lideradas pelas quatro potências vitoriosas (Prússia, Reino Unido, Áustria e Rússia), para discutir as mudanças terri-toriais, políticas e econômicas da era pós-Napoleão.

O tratado fez da Itália uma coleção de reinos governados por monarquias absolutistas. Apesar da divisão política, a língua italiana criava um elo entre os vários povos da península. E o nacionalismo, com base nessa identidade, brotou como cogumelos depois de chuva e sol. Nesse cenário apa-rentemente "bucólico", mas na verdade nervoso, a sociedade que entraria para a história como carbonária acabou virando a principal força por trás dos ideais unionistas.

Criada no ano de 1810, em Nápoles, a facção italiana do grupo defendia liberdade e igualdade. Mantinha uma postura combativa em relação à Igreja e ao absolutismo. Fundada originalmente no século 15, na Alemanha, a irmandade sempre teve forte orientação política em todos os países nos quais atuou - Portugal entre eles. O nome fazia alusão ao fato de os integrantes se reunirem em cabanas de carvoeiros. Mas a inspiração, tanto para os rituais quanto para a organização hierárquica, vinha toda da maçonaria.

Em poucos anos, a carbonária trouxe para suas fileiras centenas de milhares de pessoas. Os "maçons da floresta", como foram apelidados os carbonários, incentivavam ações armadas e chegaram a planejar diversas revoltas, como o Levante de Maserata, em 1817, fortemente reprimido pelas tropas do reino teocrático.

Ressurgimento

Em 1830, o filósofo Giuseppe Mazzini entrou para a carbonária e se tornou um dos principais mentores da unificação. Naquele mesmo ano, foi preso, acusado de conspiração. Durante sua estada no cárcere, Mazzini começou a definir os conceitos de seu próprio movimento revolucionário, a Jovem Itália. Libertado em 1831, preferiu se exilar em Marselha, na França, e organizar um novo grupo político.

A Jovem Itália pregava a revolução popular. Seus ideais de igualdade, liberdade e reformas sociais seduziram, sobretudo, os mais jovens. Entre eles, Giuseppe Garibaldi. Em 1834, Garibaldi tomou parte da Insurreição de Gênova, no reino da Sardenha. Fracassados, os conspiradores acabaram condenados à morte. O futuro líder da unificação, no entanto, conseguiu refúgio em Marselha. De lá, foi para a Tunísia. E, em 1835, partiu para o Rio de Janeiro.

Durante os 14 anos de permanência na América do Sul, Garibaldi lapidou seus dons de líder e estrategista. Na Itália, porém, o processo de unificação tomava outros rumos e novos protagonistas entravam em cena. No ano de criação da Jovem Itália, assumiu o trono de Piemonte-Sardenha o rei Carlos Alberto. O monarca promoveu reformas políticas, como a adoção do parlamentarismo e a promulgação de uma Constituição liberal. Em 1847, o maçom Camilo Benso, mais conhecido como conde de Cavour, lançou o diário Il Risorgimento ("O Ressurgimento"), que defendia a criação de uma só Itália. Era a senha para o reinício do processo de libertação das potências estrangeiras.

Em 1848, Garibaldi decidiu retomar seu destino. De volta à Europa, lutou contra os austríacos no norte da Itália. Naquele período, várias rebeliões contra o domínio estrangeiro surgiram nos territórios da península. A República Romana foi uma das mais significativas. Os revoltosos, liderados por Mazzini, tentaram implantar o regime democrático no Estado comandado pelo papa. A aventura, no entanto, durou cinco meses. Apesar da curta existência - França, Áustria e Espanha decidiram intervir e restaurar a autoridade papal -, o episódio serviu para mostrar que o sentimento nacionalista era partilhado por todo o território.

Em paralelo aos movimentos de revolta, o rei Carlos Alberto, do Piemonte-Sardenha, resolveu expulsar os austríacos dos territórios de Lombardia e Veneza. Derrotado em 1849, abdicou em favor de seu filho Vitor Emanuel II. Em 1852, o novo regente nomeou o conde de Cavour primeiro-ministro. Nessa posição, o político maçom pôs em prática seu plano para unificar a Itália.

Nos sete anos seguintes, Cavour se empenhou em costurar alianças contra a Áustria. Para ganhar a França e a Inglaterra, decidiu apoiá-las contra a Rússia na Guerra da Crimeia. Em encontros secretos com Napoleão III, ele e Emanuel II conseguiram o apoio da França.

Assim, com o tabuleiro armado e alianças secretas consumadas, o reino de Piemonte-Sardenha enfrentou novamente a Áustria, em 1859, na Segunda Guerra de Independência. Dessa vez, a vitória assegurou a reunificação de parte considerável do território italiano.

Camisas vermelhas

No ano seguinte, 1860, uma tentativa de rebelião camponesa no reino das Duas Sicílias atraiu a atenção de Garibaldi. Apoiado pelo conde de Cavour, para lá ele se dirigiu com um exército de 1 000 homens que ficou conhecido como os Camisas Vermelhas. Contra todas as previsões mais otimistas do primeiro-ministro, eles conquistaram o reino.

Embora fiel à causa republicana, Garibaldi havia se rendido a uma meta maior: a unificação italiana. Por isso, e também em respeito ao maçom Cavour, o revolucionário entregou a Sicília voluntariamente a Vitor Emanuel II. Em 1861, o monarca foi proclamado rei da Itália unificada.

Uma guerra entre a Prússia e a Áustria, em 1866, acabou resultando na devolução do Vêneto aos italianos. A reunificação total dos reinos, no entanto, só ocorreria em 1870, com a eclosão da Guerra Franco-Prussiana. Roma finalmente seria anexada à Itália. Napoleão III perderia a coroa na França. E a Prússia se transformaria no Império Alemão.

Escândalo de cinema

No início da década de 1980, o colapso do Banco Ambrosiano e a morte de seu presidente, Roberto Calvi, expôs uma rede de corrupção que envolveu o Vaticano, a máfia e a maçonaria. Tudo começou quando o grão-mestre do Grande Oriente da Itália, Giordano Gamberini, confiou ao empresário Lício Gelli a missão de recrutar nomes de destaque da sociedade italiana. À frente da loja Propaganda Due (P2), fundada em 1966, Gelli passou a usar a in-fluência junto aos maçons para fins políticos. Em plena Guerra Fria, a P2 se tornou a ponta de lança na Europa para financiar grupos anticomunistas. Roberto Calvi, que era membro da loja, colocou seu banco à disposição do esquema: intermediando fundos para organizações clandestinas e lavando dinheiro do crime organizado. O caso ganhou notoriedade quando Calvi foi encontrado morto - pendurado sob a ponte Blackfriars, em Londres - em 1982.

Um ano antes, promotores que investigavam as operações do Banco Ambrosiano já haviam descoberto a teia de influência da loja em uma busca de documentos na casa de Lício Gelli. Em 2005, o empresário foi formalmente indiciado pelo assassinato de Calvi, junto com o chefão mafioso Giuseppe Calò. Hoje, o ex-líder da P2 cumpre sentença em prisão domiciliar em sua vila na Toscana. E vendeu os direitos de sua história para uma produtora de Hollywood.

Garibaldi

Ao ouvir falar de Caçadores dos Alpes, Camisas Vermelhas ou Legião Italiana, qualquer um poderia confundir esses nomes com o de algum grupo de heróis das histórias em quadrinhos. Mas todos eles foram apelidos de esquadrões liderados pelo revolucionário Giuseppe Garibaldi.

A grande inspiração para a luta libertária de Garibaldi eram os princípios da maçonaria. O relacionamento próximo com maçons - entre eles os líderes farroupilhas Bento Gonçalves e Daniel Canabarro, com quem lutou lado a lado contra o Império do Brasil - acabou por influenciar sua decisão de ingressar na ordem. A iniciação do herói teria ocorrido, não se sabe ao certo, entre 1841 e 1844 (após a derrota na Guerra dos Farrapos, travada no Rio Grande do Sul, ou durante sua participação no movimento republicano do Uruguai).

A maçonaria era muito influente nos pampas logo após a declaração da independência brasileira. "Na década de 1830, a elite intelectual gaúcha aderiu em peso ao pensamento iluminista", diz a historiadora Eliane Lucia Colussi, da Universidade de Passo Fundo (RS). "É possível relacionar Revolução Farroupilha e movimento maçônico, pois eles são, no mínimo, contemporâneos e conectados no campo das ideias."

Garibaldi permaneceu durante 14 anos no exílio. Em 1848, voltou à Europa para ajudar seus compatriotas a completar a unificação da Itália. No ano seguinte, o revolucionário defendeu a República Romana - uma rebelião liderada por seu antigo mentor, o também maçom Giuseppe Mazzini. Garibaldi formou, então, a primeira versão da Legião Ita-liana. Dez anos mais tarde, lutou contra os austríacos na libertação da Lombardia. Seu grupo, os temidos Caçadores dos Alpes, obteve vitórias decisivas. Após a unificação do norte da Itália, ele lideraria, ainda, um exército de 1 000 homens que acabaria entrando para a história como Camisas Vermelhas.

Mesmo com toda a atividade revolucionária, Gari-baldi se manteve ativo na maçonaria. Atingiu o grau 33 - o mais alto na hierarquia da ordem no rito escocês. Em 1864, foi eleito grão-mestre. E três anos mais tarde comandou outra unificação: dessa vez, a das grandes lojas maçônicas da Itália. No dia 2 de junho de 1882, aos 74 anos, Giuseppe Garibaldi morreu em sua residência, na ilha de Caprera.

Maçons históricos


Italianos que pertenceram à ordem - do conquistador Casanova a Berlusconi

GIOVANNI CASANOVA (1725-1798)

Entrou para a história como protagonista de fantásticas aventuras amorosas. Foi iniciado em 1750, numa loja da cidade de Lyon, França.

CARLO CIAMPI

É banqueiro e senador. Foi primeiro-ministro e presidente da Itália. Também teria sido integrante da P2.

SILVIO BERLUSCONI

O premiê italiano pertenceu à loja maçônica P2, mas diz que deixou a maçonaria quando ela foi fechada (leia mais no quadro ao lado).

Ma che bella pasta!

Além de criar uma sociedade secreta revolucionária, os carbonários teriam inventado também o espaguete à carbonara - um dos mais apreciados pratos da culinária italiana.

Mas nem todo mundo concorda com essa tese. Para alguns especialistas, a receita teria sido criada não pelos revolucionários, mas pelos carvoeiros (carbonari) dos montes Apeninos. E há quem diga, ainda, que o nome do prato vem da pimenta preta e moída usada no preparo - que supostamente faz lembrar fuligem de carvão.

INGREDIENTES

350 gramas de espaguete, 150 gramas de toucinho defumado, 5 ovos (4 gemas e 1 inteiro), 100 gramas de queijo pecorino ralado, 2 colheres (sopa) de azeite, sal e pimenta-do-reino moída a gosto.

MODO DE PREPARO

1. Pique o toucinho em cubos pequenos e frite-os no azeite.

2. Bata os ovos. Em seguida, acrescente o queijo, a pimenta moída na hora e o toucinho.

3. Cozinhe o espaguete em água salgada, escorra-o e coloque-o, ainda quente, na mistura de ovos com queijo, pimenta e toucinho.

4. Polvilhe o espaguete com mais um pouco de queijo ralado e sirva imediatamente.

Para saber mais

Sociedades Secretas, Sérgio P. Couto, Digerati, 2005.

• A Unificação da Itália, John Gooch, Ática, 1991.

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